Visitas de estudo

fotografiaUma das principais responsáveis pelo meu sonho de infância de ser astrónomo foi a minha avó materna. Foi sempre a primeira pessoa a apoiar-me em tudo e levava-me a todo o lado que pudesse contribuir para o meu conhecimento. Nunca lhe perguntei, e hoje já é tarde, se o fazia porque era eu que mostrava esse interesse ou se me “manipulava” nessa direcção. Em qualquer das hipóteses, o resultado foi ela ter escolhido os primeiros filmes da minha vida, aí ter fixado o meu amor pela ficção científica, levar-me aos armazéns de equipamento de laboratório onde eu comprava os meus “mantimentos” (a maioria das vezes a custo zero, a criança de dez anos que entrava a pedir bicos de Bunsen, tubos de ensaio e tenazes, era alvo de atenção especial) e a todos os museus de Lisboa (em visitas sempre repetidas). Mas as minhas tardes preferidas eram passadas em Belém. Ainda guardo carinho especial pelo Mosteiro, desde sempre que adoro visitar o Museu da Marinha e, no mesmo pátio mágico, o Planetário. Nós não entrávamos no planetário para menos do que três sessões seguidas, não interessava o assunto, e se a tarde acabasse com um livro debaixo do braço, a coisa ficava mesmo perfeita. Pouco recordo do que ouvia ou do que aprendia. Mas a sensação na altura era a mesma de hoje: queria participar, fazer parte, ou pelo menos estar muito próximo, do conhecimento que nos explica porque é que o tamanho de uma estrela ou a idade da Terra fazem parte do mesmo “mistério”, das pessoas que estão a olhar simultaneamente para o nosso passado e para o nosso futuro, da Astronomia.

Passados 30 anos…
…foi a vez de o visitar com os meus filhos. E o essencial mantém-se ali… não sei se devido a reminiscência de criança, nostalgia inescusável, ou porque a instituição soube envelhecer sem apodrecer, o sítio era quase o mesmo que deixei há tantos anos. O equipamento é moderno q.b., o projector já não é o mesmo, mas os grupos de escolas, os risos das crianças e as perguntas infantis estão iguais. O tema da sessão, para quem quer criar dois astrogeeks, não era o ideal mas encaixava-se no nosso horário. Teremos que voltar numa visita com um tema menos avançado do que o nascimento e a morte das estrelas, em que os números tenham menos zeros e que seja mais fácil de motivar crianças de dez anos. Mas confesso que eu também pouco ouvi das palavras do locutor: quando foi projectado aquele céu límpido na abóbada só consegui ficar estarrecido, a tentar reconhecer e recordar o nome de todas aquelas estrelas. Vi M33 a “olho nu”, não havia turbulência que abafasse uma dupla, e três anos passaram pelos meus olhos. Claro… agora já sei porque é que não me lembro de nada do que aprendi naquelas tardes há 30 anos, e porque é mesmo assim as recordo com tanto carinho.

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